Antonin Artaud era o único libertário dentre os surrealistas. O surrealismo, na figura de seus representantes, era autoritário, simpatizava com monarquias e fascismos. Eles pareciam buscar uma ordem para conter o caos que representavam nas linguagens em que trabalhavam. Eram aristocratas, ora de direita, ora de esquerda, mas sempre simpáticos ao comando. Artaud, não. Ele admitia as próprias singularidades, subjetividades e idiossincrasias, buscando uma transcendência. Não queria um comando, queria um devir, por isso se voltava para outras culturas, consideradas “inferiores” na Europa do início do século 20. Artaud radicalizava. Seu desregramento não era fingido, racionalizado, mas vívido e vivenciado na própria carne. Ousando desconstruir-se, livrar-se das frágeis certezas moralistas que originaram a Primeira Guerra Mundial, ele ousava/usava a si mesmo como instrumento de sua arte, desnudando-se até os ossos. Nada mais coerente que chamar seu método de Teatro da Crueldade: numa época de extremos, onde se preparava uma nova guerra (da qual ele seria uma das vítimas, sobrevivendo como um espectro de si mesmo, mas ainda poderoso), seu Teatro torna-se um espelho desse absurdo; sua maior representação, o grito.
Em quê Artaud estaria trabalhando hoje? Talvez ele se interessasse pelo fenômeno das tribos urbanas, com seus emos, grunges, punks, hippies e rockers surgidos desde 1955. Talvez ele trabalhasse essa alteridade, tão diferente de sua época de conformismo e uniformização, colarinhos e gravatas. Talvez ficasse impressionado com piercings, tatuagens, cortes de cabelo, danças tribais da juventude em suas diversas épocas. Não é à toa que Artaud parece (e é, de fato) tão moderno. Ele estava uns trinta anos à sua frente, misto de cientista, bruxo, alquimista, gênio e louco. Um contemporâneo do futuro, de um mundo ainda mais caótico e neurótico, mas ao mesmo tempo rico em possibilidades. E talvez seu Teatro da Crueldade pudesse, sim, ter outro nome que apontasse transformações, renascimentos, descobertas: Devir.





