sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

ARTAUD E O DEVIR LIBERTÁRIO


Antonin Artaud era o único libertário dentre os surrealistas. O surrealismo, na figura de seus representantes, era autoritário, simpatizava com monarquias e fascismos. Eles pareciam buscar uma ordem para conter o caos que representavam nas linguagens em que trabalhavam. Eram aristocratas, ora de direita, ora de esquerda, mas sempre simpáticos ao comando. Artaud, não. Ele admitia as próprias singularidades, subjetividades e idiossincrasias, buscando uma transcendência. Não queria um comando, queria um devir, por isso se voltava para outras culturas, consideradas “inferiores” na Europa do início do século 20. Artaud radicalizava. Seu desregramento não era fingido, racionalizado, mas vívido e vivenciado na própria carne. Ousando desconstruir-se, livrar-se das frágeis certezas moralistas que originaram a Primeira Guerra Mundial, ele ousava/usava a si mesmo como instrumento de sua arte, desnudando-se até os ossos. Nada mais coerente que chamar seu método de Teatro da Crueldade: numa época de extremos, onde se preparava uma nova guerra (da qual ele seria uma das vítimas, sobrevivendo como um espectro de si mesmo, mas ainda poderoso), seu Teatro torna-se um espelho desse absurdo; sua maior representação, o grito.

Em quê Artaud estaria trabalhando hoje? Talvez ele se interessasse pelo fenômeno das tribos urbanas, com seus emos, grunges, punks, hippies e rockers surgidos desde 1955. Talvez ele trabalhasse essa alteridade, tão diferente de sua época de conformismo e uniformização, colarinhos e gravatas. Talvez ficasse impressionado com piercings, tatuagens, cortes de cabelo, danças tribais da juventude em suas diversas épocas. Não é à toa que Artaud parece (e é, de fato) tão moderno. Ele estava uns trinta anos à sua frente, misto de cientista, bruxo, alquimista, gênio e louco. Um contemporâneo do futuro, de um mundo ainda mais caótico e neurótico, mas ao mesmo tempo rico em possibilidades. E talvez seu Teatro da Crueldade pudesse, sim, ter outro nome que apontasse transformações, renascimentos, descobertas: Devir.


sexta-feira, 27 de novembro de 2009

ANTIFILMES


Aqui
um pouco das gravações dos dois novos vídeos experimentais da antifilmes produções.

SUSPEITA
Thati Jordison, Marcelo Marat e Flavio Ramos.

FACES
Anderson Arke, Ana Seixas, Marcelo Marat e Ângela do Céo.



sábado, 14 de novembro de 2009

REDES DE RELACIONAMENTO


Ela abandonou o msn pelo twitter, onde ele reencontrou seu primeiro amor. Saiu para comprar teste de gravidez para a amiga e estava tão nervosa quanto se fosse para ela própria. Outro tentou terminar uma mal passada inimizade adicionando o desafeto no Orkut, mas foi rejeitado. No facebook elas só conversavam em inglês. Seu espaço era o myspace, com suas bem cuidadas listas de músicas. A crônica moderna de 140 caracteres ganhava mais corpo no blog que ninguém visitava, apesar dos pedidos insistentes. Poesia virtual. Poesia eletrônica. Poesia fria para olhos mecânicos. Uma nova imagem para o fotolog, um novo sorriso para o flickr. Olhos cansados. Ilhas de solidão. Mais um contato bloqueado. Mais uma noite em claro. Olhou para a porta, arriscou-se a sair. Ouça o chamado: alguém está pedindo sua atenção...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

REEDIÇÃO DE "O INQUILINO"



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

ENTREVISTA

Comecei a fazer roteiros de quadrinhos há quase vinte anos, em 1991. Atuava principalmente na área dos quadrinhos alternativos, em fanzines e publicações independentes.
O cinema surgiu quase ao mesmo tempo que os quadrinhos, mas na época ainda não havia a facilidade que hoje se tem para filmar, usando câmeras digitais e programas de edição caseiros. Minha formação na área dos vídeos é totalmente diletante.
Minhas produções em vídeo são essencialmente experimentais. Meu objetivo é acima de tudo estético.
Como definir minhas produções? Sem pretensão, digo que são vídeos de arte.
Dirigi sete vídeos, sete curtas experimentais.
A produção é totalmente experimental. Usamos câmeras comuns de vídeo digital e sempre convido atores que tenham alguma intimidade com o teatro para atuar.
Escolhi o gênero de horror porque além de ser um gênero que brinca com o fantástico, presente em boa parte da literatura latino-americana, é um gênero que considero o mais próximo da poesia.
Trabalhei com duas produtoras independentes: Abuso Produções e Antifilmes Produções. Em ambas o experimentalismo e a premissa de se fazer curtas a custo zero sempre foram primordiais, tão importantes quanto a necessidade de uma narrativa esteticamente construída.
Meus diretores preferidos, referência em meus trabalhos, são: Roman Polanski, David Lynch, Roger Corman, Rogério Sganzerla, David Cronemberg, entre outros.
Claro que levo meus filmes a sério. Minhas aspirações não são chegar a Hollywood, mas sim definir uma linguagem que me seja característica. Em outras palavras, faço vídeos porque não posso fazer cinema; faço vídeos para comunicar minhas idéias; e faço vídeos porque é preciso, na vida, fazer alguma coisa, e essa foi a que escolhi.
O conceito de cinema trash é preconceituoso. Visa apenas definir uma crítica de cinema. É um rótulo, apenas. Há filmes inclassificáveis, e mais ainda vídeos e curtas. O que importa para o videasta, seja de um grande estúdio, seja em pequenos empreendimentos, é comunicar sua mensagem, esperando que um grande número de pessoas compartilhe de sua visão de mundo. Tudo depende da visão de quem assiste. No final, é tudo um conceito moral, e acredito que a arte não tem moral.

Parte dessa entrevista foi publicada pelo jornal O Diário do Pará.

domingo, 25 de outubro de 2009

NOTURNOS


Pneu furado às duas da madrugada. Paro o carro ao lado de um cemitério. Rua deserta. Que rua é essa, mesmo? Centro da cidade, quase. Bairro nobre, metro quadrado dos mais caros, e mesmo assim esse enorme terreno baldio murado, parecendo um velho castelo em ruínas. Uma contradição perigosa.

Sem sair do carro, apanho o celular e ligo para o seguro. Resgate garantido em quinze minutos.

Cinco minutos se passam. Vontade de fumar. Saio. A noite está fria, mas agradável. Acendo o cigarro e relaxo na primeira tragada. É quando vejo o homem ao lado do muro do cemitério. Ele já estava ali quando parei? Avança devagar, meio oculto pelas sombras. Pesado. É o maior homem que eu já vi. Uns dois metros de altura, largo como um armário, negro como a noite de onde parece ter saído.

Princípio de pânico, mas controlo. Não seria muito digno correr nessa hora (além do quê, para onde?). Ele aproxima-se e fala – e sua voz soa surpreendentemente delicada:

- Precisa de ajuda?

- Obrigado. Já chamei o resgate.

- Não é seguro ficar parado aqui. Muito assalto.

- Tudo bem, eles já devem estar chegando... O pessoal do resgate.

Mais uma tragada. Pareço nervoso? Estou tentando não parecer nervoso! Ele olha em volta, como se quisesse lembrar de algo. Nem um carro passa. Silêncio de cidade morta.

- Tudo bem, então. Boa sorte.

Ele se afasta com o mesmo passo lento, pesado e solene, como um iceberg no mar ou uma montanha que se movesse. Me distraio com o som de um automóvel. É o resgate que chega. Volto para as sombras, mas ele já desapareceu. Tão rápido? Para onde?

Outros carros passam. A cidade parece se espreguiçar na noite, retornando à vida. Mas a manhã ainda vai demorar...


sábado, 17 de outubro de 2009

SAPATOS


Sou um colecionador de sapatos. Não materialmente, não como um consumidor que colecione pares de sapatos. Eu os coleciono pelo olhar. Não se trata, também, de podolatria (fetiche por pés). Os sapatos que eu coleciono estão abandonados, jogados pelas ruas. É muito comum eu encontrá-los, e isso me intriga. Alguns estão em bom estado, alguns usados e raramente os encontro imprestáveis. Femininos e masculinos, quase nunca de crianças. Comecei a prestar atenção neles e a pergunta que me fazia era: o que terá acontecido com seus donos? É como se sumissem de repente, evaporassem, restando apenas os sapatos. Para onde foram eles, os donos desses pares de sapatos abandonados? Para onde eles vão, já que continuo a encontrar outros em meus caminhos? Para onde quer que seja, é um lugar onde só se entra descalço...